
Reinaldo Ferreira (Repórter X) foi repórter, jornalista, poeta, publicista, dramaturgo e cineasta. Nasceu em Lisboa em 10 de Agosto de 1897, e veio a falecer na mesma cidade a 4 de Outubro de 1935. Casou duas vezes, com Lucília Ferreira, de quem teve dois filhos, Yolanda Ferreira e Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira (poeta de valor que morreu precocemente em África); e com Carmen Cal, de quem teve um filho, Oswaldo.
Década de 1910:Em 1909, aos doze anos de idade, inicia a sua carreira jornalistica; e em 1913/1914, na qualidade de repórter para o jornal
A Capital, faz a sua primeira reportagem sobre um fogo posto na rua da Estefânia, em Lisboa. Reinaldo veio a tornar-se famoso por apresentar obras de ficção como se de reportagens reais se tratassem.
Uma das suas primeiras fabulações (que assinou com o nome fictício Gil Goes) foi escrita em 1917 aos 19 anos de idade, já quando trabalhava para o jornal
O Século. Era sobre um assassínio (inexistente) que se teria dado na rua Saraiva de Carvalho. A reportagem causou sensação, e o jornal acabou por assumir que se tratava apenas de um folhetim. A história vem a transformar-se em livro, intitulado
O Mistério da Rua Saraiva de Carvalho. Segundo o biógrafo Joel Lima, o realizador José leitão Barros terá querido adaptar este livro ao cinema sob o título
O Homem dos Olhos Tortos (cognome do assassino ficcional) e apesar de não ter levado o projecto em diante existirão na
Cinemateca Nacional mil metros de película que chegaram a ser rodados.
Em Março de 1918 Reinaldo Ferreira publica outra reportagem ficcional no jornal
A Manhã, em que inventava ter experimentado a vida de mendicidade, fazendo-se passar nas ruas por um sem-abrigo. No mesmo ano, trabalhando para o jornal
O Século, e em colaboração com o ilustrador Stuart de Carvalhais, inventa uma reportagem sobre um suposto assassinato que se teria dado numa pensão de Lisboa, encenando fotografias em que espalhou sangue de galinha num quarto da dita pensão. Também em 1918, inventa ter ouvido as últimas palavras do presidente Sidónio Pais quando este foi assassinado na Estação do Rossio -- que teriam sido "Morro eu, mas salva-se a Pátria".
Década de 1920:Casa com Lucília Ferreira, e em 1920 viaja para Paris, em trabalho para a filial francesa da
Agência Americana, fundada pelo escritor brasileiro Olavo Bilac. Em finais de 1921 deixa essa empresa e fixa-se com a família em Barcelona (Espanha), levando consigo também a mãe, que fora abandonada pelo pai. Nasce o seu filho Edgar. Quando Primo Rivera sobe ao poder Reinaldo estava na Catalunha, e decide enviar para a imprensa de Lisboa um artigo em que critica o ditador, e regressa a Portugal. Ao princípio assina esta crónica com o seu nome, mas aconselhado por um amigo a ter prudência, rasura o seu nome e substitui-o por
Repórter. Por erro do tipógrafo o artigo sai com o nome
Repórter X, que se vem a tornar o seu
nom de plume.
Em 1923 é adaptada ao cinema espanhol a sua novela
O Groom do Ritz, sob o título
El Botones del Ritz (filme perdido).
Em Portugal emprega-se na revista
ABC, que em 1925 o envia à Rússia, para acompanhar as lutas políticas que sucederam à morte de Lenine. Em Paris tem dificuldade em obter o visto necessário para seguir viagem, e é aí que presumivelmente terá experimentado pela primeira vez a morfina, da qual se tornaria dependente. Inventa uma entrevista fictícia ao célebre escritor Conan Doyle. Outra figura da vida real que inventa ter entrevistado é Mata Hari. O seu biógrafo Joel Lima argumenta que as reportagens que subsequentemente Reinaldo Ferreira envia são ficcionadas, e que o repórter nunca terá pisado em Moscovo, escrevendo de Paris artigos baseados nos do jornalista Henri Béraud, destacado pelo
Le Journal.
Em 1926 regressa a Portugal, para o Porto, trabalhando para o
ABC e para
O Primeiro de Janeiro. Nesse ano publica
Homens do dia e mulheres da noite: Lenine, Mussolini, Raquel Meller, Rasputine, Mata-Hari. Em Março desse ano a corista Maria Alves é brutalmente assassinada em Lisboa. Reinaldo Ferreira inventa uma reportagem em que conjectura que o culpado tenha sido o seu ex-namorado e ex-empresário Augusto Gomes. Por acaso acerta, o que vem contribuir para a fama do Repórter X.
Baseado neste caso, Reinaldo escreve o folhetim
O Táxi nº 2927, que é primeiro publicado nas páginas do jornal
O Primeiro de Janeiro em que trabalha, e subsequentemente publicado em livro, e levado à cena. Em 1927 decide fazer de
O Táxi nº 2927 um filme e para o efeito cria a sua própria produtora cinematográfica, a
Repórter X Film. Óbtém financiamento do comerciante Joaquim Alves Barbosa, e usa os estúdios da falida
Invicta Film, no Porto. Conta com a assistência de Pedro Santos e Maurice Laumann como responsável pela fotografia, e Alves da Costa no papel principal.
Em 1926/28 a sua produtora cinematográfica cria
O Diabo em Lisboa (filme perdido), e mais três curtas-metragens em 1927:
Hipnotismo ao Domicílio (filme perdido, do qual restam 566 metros de película),
Rita ou Rito?...,
Vigário Sport Club (filme perdido, do qual restam algumas imagens), e ainda o documentário
Entrevistas Cinematográficas com Escritores e Jornalistas de Lisboa (material perdido).
A mulher Lucília deixa-o em 1928, e em 1929 Reinaldo junta-se a Carmen Cal, da família portuense dos advogados Cal Brandão, de quem vem a ter um filho, Oswaldo. Nesse ano é editada a sua novela
Impossível, que Fernando de Araújo afiança tê-lo visto a escrever de uma assentada, certa noite no café portuense
Avenida, durante uma aposta em que estavam em jogo 250 escudos. Publica também
Cemitério da glória e da saudade: crónicas.
Ainda a trabalhar para
O Primeiro de Janeiro, Reinaldo inventa uma polémica que lhe vale ser despedido pelo jornal: supostamente os alemães estariam a fazer circular libras de louça, para desacreditar a moeda inglesa, e nesta trama Reinaldo envolvia o nome do banqueiro Francisco Borges, do banco
Borges & Irmão.
Década de 1930:
Reinaldo funda vários jornais e, em 1930, com o financimento de um irmão, cria em Lisboa o jornal
Repórter X, que dura até 1933. O chefe de redacção Mário Domingues, seu colega no
Colégio Francês, abandona o projecto para criar
O Detective, onde denuncia algumas das ficções de Reinaldo. Duramte 1930 Reinaldo escreve também para a revista portuguesa
Ilustração.
Em finais de 1932 Reinaldo volta a Lisboa, onde é internado para uma cura de desintoxicação. Alguns meses mais tarde escreve sobre a sua dependência nas páginas do
Repórter X, e em 1933 publica o livro
Memórias de um ex-morfinómano. Nos últimos anos da sua vida lança ainda os jornais
A Reportagem da Semana e o
X. A sua dependência da morfina regressa, e em 1935, ano da sua morte, separa-se de Carmen.
Em 1986 o realizador José Nascimento realizou um filme sobre Reinaldo Ferreira intitulado
Repórter X, com Joaquim de Almeida no papel principal, num argumento em que a vida real e a ficção criada pelo Repórter X se entreteçem.
Em 2005 Alexandre Reina cria o docudrama
Repórter X Reaparece para BeBop, a cargo de Costa do Castelo, baseado na vida e no imaginário deixados por Reinaldo Ferreira, com narração de Filipe Crawford.
A Vida Intima dos Cafés
, texto de Reinaldo Ferreira (Repórter X), com ilustrações de Stuart Carvalhais, saído na revista Ilustração, No. 112, em Agosto 16 1930. Carregar na imagem para ver em tamanho 1102 x 1500.
"Uma noite perguntou ela qual era o secreto e poderoso prazer do café, que se sobrepunha assim ao prazer de se demorar a seu lado, ao alcança das suas carícias e encantá-la com a sua conversa, sempre brilhante, mesmo quando banal. E êle exclamou:
- Perdoa, meu amor -- mas tu bem sabes que eu adoro o café. O café, pode dizer-se, é o meu único vício. Um jantar sem o remate do café é uma ogiva sem chave. Mas há de ser bom -- que o sofrível é peor do que mau para o verdadeiro amador.
- Está bem -- concordou a espôsa. Compreendo-te e dou-te razão. E de àmanhã em diante vou estudar profundamente a alquímia do café -- para poder competir com o que tomas lá fora.
Oito dias depois era solenemente inaugurado o café resultante dos estudos da espôsa, de dezenas de experiências e de uma verdadeira busca geral por tôdas as boas mercearias de Lisboa."
Referências online:
-
Artigos escritos por Reinaldo Ferreira (Repórter X) para a revista Ilustração, no blog
Ilustração Portuguesa-
Artigos escritos por Reinaldo Ferreira (Repórter X) para a revista Ilustração, no flickr
Gatochy-
Filme Repórter X, no site
IMDB-
Reinaldo Ferreira e
Repórter X, no blog
Dias que Voam-
Biografia, no site
Alfarrábio-
Biografia, por Luís Miguel Queirós, no site
Alfarrábio-
Filmografia de Reinaldo Ferreira, no site
IMDB-
Filme Repórter X, no site
Amor de Perdição-
Reinaldo Ferreira e a Repórter X Film, no site
Centro Virtual Camões-
Repórter X, na
Infopédia-
Transcrição do conto O cão que era morfinómano, no blog
Biajoni-
Bibliografia, no site
Rede Municipal de Bibliotecas de Lisboa-
Imagem do filme O Táxi nº 9297, no blog
Miguel Martins-
Biografia, no blog
Por Via da Dúvida-
Fotografia de Reinaldo Ferreira, no blog
Abnoxio-
Filmografia, no site
Imaginário